Ela era o depois, 2011 - Simone Huck
Entrou no
carro com pressa. Ligou o rádio ao mesmo tempo que derrubou todas as
coisas do console no chão. Olhou o relógio: era atraso, era chuva,
eram tantas coisas que não queria misturando-se com os cds que não
ajudavam.
Queria
ouvir uma música única. Dessas nunca ouvida antes para que pudesse
fechar os olhos e sonhar com uma história também nova, num outro
planeta, numa outra carne, numa outra alma, numa espaçonave
estacionada num planeta recém-formado.
Tinha um
gosto amargo na língua que perdurava por alguns meses, desde o
momento que passou a não conseguir acreditar mais em nada.
Dormia e
nunca sonhava. Acordava e parecia que nunca havia dormido.
Não
encontrou o cd, muito menos a música.
A chuva
não parou.
O
trânsito não ajudou.
E os dias
cinzas acumulavam-se pela coleção das suas mãos que tentavam
comandar seu universo há muito colidido.
Ela era
tão jovem. Ela era
tão envelhecida.
Ela o
amava. Ele nem
sabia.
Ela
precisava visitar o dentista mais uma vez só pra conseguir ficar
algumas horas olhando aquela luz sem pensar em nada, com medo de ter
medo da dor que o motorzinho sempre lhe provocava, ao mesmo tempo que
apagava qualquer dúvida de qualquer vida.
Ela
fugia.
Nunca
chegava e ainda assim, esperava.
Num dia
qualquer de um mês despretensioso, entrou no carro acompanhada por
Clarice.
Foi até
a primeira praia que suas mãos pudessem alcançar. Sentou. Ensaiou
chorar mas nem isso conseguia.
Abriu-a.
Ela era tão perfeita quanto tão gêmea.
Clarice
falou tudo o que ela gostaria de falar e acreditou em tudo que ela
não mais ousava acreditar. Então, fechou-a e a arremessou ao mar.
Clarice
boiou até naufragar e com ela, toda a verdade que ela sabia também
ser.
Foi então
que entrou no carro.
Mirou o
mar, acelerou e foi ao encontro de Clarice – não poderia
abandoná-la.
Só
percebeu que tinha encontrado a alegria quando sua boca virou sal.

7 comentários:
Querida
Que (boa) surpresa, sua crônica!
Acho mesmo que não há nada que a gente não possa fazer nessa vida.
Agora você já sabe disso.
Quando sai a próxima?
Beijos, e dos grandes.
Sil
Não pare!
Por favor!
O importante é encontrar-se, não?
Boa a sensação de sempre se descobrir capaz de coisas novas. Principalmente quando essas coisas vêm de uma alma como a sua. Vc ganha... nós ganhamos ainda mais.
Um bj, meu bem.
Por que será que a maioria das pessoas só descobrem os seus horizontes quando não são mais capazes de vê-lo?
E quando estão no escuro, em meio as sombras querem luz a todo custo e só então mergulham em busca de si mesmas.
Não sei quanto a você, mas mim produz um cansaço sobrenatural esse tipo de coisa. rs
bacio
Que bom te ler.
Por favor continua.
Abraço do meio do rio :)
"Queria ouvir uma música única. Dessas nunca ouvida antes para que pudesse fechar os olhos e sonhar com uma história também nova, num outro planeta, numa outra carne, numa outra alma, numa espaçonave estacionada num planeta recém-formado." Simone Huck
Essa frase define a minha vontade!!!!!
Essa crônica será a primeira de milhares...........continue...
Lindo!!!!!
Me fez pensar......se é que isso ainda é possível.kkkk
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