2 de maio de 2011

ELA ERA O DEPOIS... (Crônica#01)

Ela era o depois, 2011 - Simone Huck

Entrou no carro com pressa. Ligou o rádio ao mesmo tempo que derrubou todas as coisas do console no chão. Olhou o relógio: era atraso, era chuva, eram tantas coisas que não queria misturando-se com os cds que não ajudavam.
Queria ouvir uma música única. Dessas nunca ouvida antes para que pudesse fechar os olhos e sonhar com uma história também nova, num outro planeta, numa outra carne, numa outra alma, numa espaçonave estacionada num planeta recém-formado.
Tinha um gosto amargo na língua que perdurava por alguns meses, desde o momento que passou a não conseguir acreditar mais em nada.

Dormia e nunca sonhava. Acordava e parecia que nunca havia dormido.

Não encontrou o cd, muito menos a música.
A chuva não parou.
O trânsito não ajudou.
E os dias cinzas acumulavam-se pela coleção das suas mãos que tentavam comandar seu universo há muito colidido.

Ela era tão jovem. Ela era tão envelhecida.
Ela o amava. Ele nem sabia. 

Ela precisava visitar o dentista mais uma vez só pra conseguir ficar algumas horas olhando aquela luz sem pensar em nada, com medo de ter medo da dor que o motorzinho sempre lhe provocava, ao mesmo tempo que apagava qualquer dúvida de qualquer vida.

Ela fugia.
Nunca chegava e ainda assim, esperava.

Num dia qualquer de um mês despretensioso, entrou no carro acompanhada por Clarice.
Foi até a primeira praia que suas mãos pudessem alcançar. Sentou. Ensaiou chorar mas nem isso conseguia.
Abriu-a. Ela era tão perfeita quanto tão gêmea.
Clarice falou tudo o que ela gostaria de falar e acreditou em tudo que ela não mais ousava acreditar. Então, fechou-a e a arremessou ao mar.
Clarice boiou até naufragar e com ela, toda a verdade que ela sabia também ser.

Foi então que entrou no carro.
Mirou o mar, acelerou e foi ao encontro de Clarice – não poderia abandoná-la.
Só percebeu que tinha encontrado a alegria quando sua boca virou sal.

7 comentários:

Silmara Franco disse...

Querida
Que (boa) surpresa, sua crônica!
Acho mesmo que não há nada que a gente não possa fazer nessa vida.
Agora você já sabe disso.
Quando sai a próxima?
Beijos, e dos grandes.
Sil

Zi disse...

Não pare!
Por favor!

Poeta da Colina disse...

O importante é encontrar-se, não?

Elan Popp disse...

Boa a sensação de sempre se descobrir capaz de coisas novas. Principalmente quando essas coisas vêm de uma alma como a sua. Vc ganha... nós ganhamos ainda mais.
Um bj, meu bem.

Menina no Sotão disse...

Por que será que a maioria das pessoas só descobrem os seus horizontes quando não são mais capazes de vê-lo?
E quando estão no escuro, em meio as sombras querem luz a todo custo e só então mergulham em busca de si mesmas.
Não sei quanto a você, mas mim produz um cansaço sobrenatural esse tipo de coisa. rs
bacio

cegonhagarajau disse...

Que bom te ler.
Por favor continua.
Abraço do meio do rio :)

katia disse...

"Queria ouvir uma música única. Dessas nunca ouvida antes para que pudesse fechar os olhos e sonhar com uma história também nova, num outro planeta, numa outra carne, numa outra alma, numa espaçonave estacionada num planeta recém-formado." Simone Huck

Essa frase define a minha vontade!!!!!


Essa crônica será a primeira de milhares...........continue...

Lindo!!!!!

Me fez pensar......se é que isso ainda é possível.kkkk