"Vida", 2010 - Simone Huck
Adélia
brindou-me com uma taça nas mãos.
Puxou
a cadeira.
Sentou-se
e, antes, escarrou no canto da porta alguma palavra sem dente que não
conseguiu digerir.
Sorriu
com dentes amarelados por mariposas que rodeavam tontas alguma luz
acesa na noite.
Trazia
um cigarro, um caderno e todo o seu sarcasmo entre suas unhas
levemente sujas.
Adélia
tinha cabelos brancos que guardavam muitas histórias
e uma
pele enrugada que não ousava lembrar tudo o que não teve coragem de
viver.
Olhou-me.
Seu
olhar arrepiou qualquer coisa que eu intencionasse perguntar.
Apontou-me
o céu e disse:
olhe
aquela estrela!
Prontamente
olhei.
Então
ela tragou seu cigarro como quem traga respostas de poços escuros e
secos, repletos de teias de aranhas antigas e disse:
elas
não existem! Não porque são passado, isso são bobagens de
cientistas medidores. Elas não existem. “Toda convicção é
apostólica”. Não queira ser alegre, nem triste. O segredo habita
o entre das coisas.
Então
levantou,
caminhou,
abriu
o portão e antes de sumir acenou-me como quem nunca mais vai voltar.
E ali
fiquei.
Entre
os silêncios: - da noite e de mim.
E ali
dormi.
Entre
as coisas que sonho e que não ouso sonhar.
Entre
o que acredito e o que omito.
Entre
o antes e o depois de qualquer pensamento-pássaro.
Entre
o que sou e o que fui.
Ali,
vislumbrando
outras estrelas que não passam de uma bela paisagem pra nos distrair
desse tempo ocluso que aprendemos a chamar de vida.

11 comentários:
"... uma pele enrugada que não ousava lembrar tudo o que não teve coragem de viver."
Já tenho algumas rugas que gritam o tempo que passou e eu nem vi. Suas tempestades rodopiam a minha alma. Obrigada.
O segredo habita o ente dos astros.
Rosa
Fiquei aqui imaginando rugas, caminhos, parte de uma história, de um sonho, de uma ilusão...
Eu sempre gostei do meio do caminho, nunca o exato instante, sempre o antes e o depois, nem a alegria, tão pouco a tristeza. Um meio termo que nos permite observar as sombras que criamos por onde passamos.
bacio
Palavra sem dente. Pensamento-pássaro. Adoro aumentar o vocabulário do pensamento.
Isto aqui é mais-que-lindo, Si. Muito mais.
Beijo em você e na Adélia.
nos "silêncios da noite e de mim" as palavras transitam/ excitam a fala... que me cala. Sempre intenso ler-te! bj
"Entre o que sou e o que fui"
Tenho a sensação que nem Sou e nem Fui.....
Ter acesso a sua alma é muito maravilhoso... é sentir a diferença entre o Ver e o Olhar.
Comentei e não comentei... não publiquei... as coisas vão assim... indo e não indo.. mas "entres"... sei lá! me parece algo frustrante... irrealizável e "inacontecido" - apenas aspirado, sonhado, desejado... a vida é feita do real, que é estar não no "entre das coisas" mas no "meio delas"... entre o sonho e a poesia fico eu aqui com o dia dos acontecimentos possíveis.. Não quero ser para sempre incompleta entre o querer e o poder. Quero apenas o que tem que ser. Anônima Filosófica.
Ali, pelo menos, inteira.
Inda bem que basta olhar pra cima.
Beijo.
Ousar sonhar
Muito bom
É por essas e por outras que eu gosto tanto de te ler. O coração acelera e bate no ritmo das palavras. Um beijo grande minha delícia, acho que consegui atualizar...mas saio com gosto de quero mais...
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