16 de junho de 2011

ADÉLIA E A NOITE...

  "Vida", 2010 - Simone Huck
Adélia brindou-me com uma taça nas mãos.
Puxou a cadeira.
Sentou-se e, antes, escarrou no canto da porta alguma palavra sem dente que não conseguiu digerir.
Sorriu com dentes amarelados por mariposas que rodeavam tontas alguma luz acesa na noite.
Trazia um cigarro, um caderno e todo o seu sarcasmo entre suas unhas levemente sujas.
Adélia tinha cabelos brancos que guardavam muitas histórias 
e uma pele enrugada que não ousava lembrar tudo o que não teve coragem de viver.
Olhou-me.
Seu olhar arrepiou qualquer coisa que eu intencionasse perguntar.
Apontou-me o céu e disse:
olhe aquela estrela!
Prontamente olhei.
Então ela tragou seu cigarro como quem traga respostas de poços escuros e secos, repletos de teias de aranhas antigas e disse:
elas não existem! Não porque são passado, isso são bobagens de cientistas medidores. Elas não existem. “Toda convicção é apostólica”. Não queira ser alegre, nem triste. O segredo habita o entre das coisas.
Então levantou,
caminhou,
abriu o portão e antes de sumir acenou-me como quem nunca mais vai voltar.
E ali fiquei.
Entre os silêncios: - da noite e de mim.
E ali dormi.
Entre as coisas que sonho e que não ouso sonhar.
Entre o que acredito e o que omito.
Entre o antes e o depois de qualquer pensamento-pássaro.
Entre o que sou e o que fui.

Ali,
vislumbrando outras estrelas que não passam de uma bela paisagem pra nos distrair desse tempo ocluso que aprendemos a chamar de vida.

11 comentários:

Elan Popp disse...

"... uma pele enrugada que não ousava lembrar tudo o que não teve coragem de viver."

Já tenho algumas rugas que gritam o tempo que passou e eu nem vi. Suas tempestades rodopiam a minha alma. Obrigada.

Anônimo disse...

O segredo habita o ente dos astros.
Rosa

Menina no Sotão disse...

Fiquei aqui imaginando rugas, caminhos, parte de uma história, de um sonho, de uma ilusão...
Eu sempre gostei do meio do caminho, nunca o exato instante, sempre o antes e o depois, nem a alegria, tão pouco a tristeza. Um meio termo que nos permite observar as sombras que criamos por onde passamos.

bacio

Silmara Franco disse...

Palavra sem dente. Pensamento-pássaro. Adoro aumentar o vocabulário do pensamento.
Isto aqui é mais-que-lindo, Si. Muito mais.
Beijo em você e na Adélia.

Sandra Regina de Souza disse...

nos "silêncios da noite e de mim" as palavras transitam/ excitam a fala... que me cala. Sempre intenso ler-te! bj

katia disse...

"Entre o que sou e o que fui"

Tenho a sensação que nem Sou e nem Fui.....
Ter acesso a sua alma é muito maravilhoso... é sentir a diferença entre o Ver e o Olhar.

Anônimo disse...

Comentei e não comentei... não publiquei... as coisas vão assim... indo e não indo.. mas "entres"... sei lá! me parece algo frustrante... irrealizável e "inacontecido" - apenas aspirado, sonhado, desejado... a vida é feita do real, que é estar não no "entre das coisas" mas no "meio delas"... entre o sonho e a poesia fico eu aqui com o dia dos acontecimentos possíveis.. Não quero ser para sempre incompleta entre o querer e o poder. Quero apenas o que tem que ser. Anônima Filosófica.

Poeta da Colina disse...

Ali, pelo menos, inteira.

Lilian disse...

Inda bem que basta olhar pra cima.
Beijo.

Mar Arável disse...

Ousar sonhar

Muito bom

Sonia Pallone disse...

É por essas e por outras que eu gosto tanto de te ler. O coração acelera e bate no ritmo das palavras. Um beijo grande minha delícia, acho que consegui atualizar...mas saio com gosto de quero mais...