15 de agosto de 2011

A PORTA DE PANDORA


Foto: Simone Huck


Abriu a janela do quarto e a luz que vinha de fora lhe ofuscou a alma. 
Eram tantas contradições penduradas em sua boca. E nas suas costas doloridas, as asas começavam a dar sinais de que nasciam, fazendo com que ela tivesse a pesada sensação de que carregava o mundo. 
Tudo doía: a vida, os passos, a noite.

Eram dias estendidos em grandes varais balançando possibilidades coloridas. Projeções. 
Fragmentos. 
Saliva com gosto de Monet, Manet, Picasso... Qual era mesmo o nome do perfume que ela insistia em não acertar?

Não, não foi a caixa. 
A caixa era pequena, até certo ponto inútil num canto qualquer de um cômodo que antecedia a porta. 
E ela tentou com os joelhos, com os cotovelos, com seu corpo dolorido se atirar e fechar, empurrar, esmurrar, não ver, não querer, não saber, não perceber que só de ter visto transformou-se em outra, era outra.
E então a Porta de Pandora se abriu.
E com ela, veio o choro, o grito, a vontade de não ter visto, de não ter crescido, de não ter se transformado em tantas outras omitidas em si.

Sentou no chão. Chorou. 
Enxugou as lágrimas com um pedaço de pano da cortina e com a ponta dos dedos foi fazendo desenhos no chão empoeirado do seu coração. Tudo era um quadro, um campo, uma possibilidade de inscrições. 
E ali deixou-se ficar, estendida entre lágrimas e desenhos, morte e vida.

Mais tarde descobriu que para conseguir de fato viver, 
era preciso morrer.

7 comentários:

Silmara Franco disse...

Gosto tanto das surpresas que tuas construções trazem... contradições penduradas na boca, varais balançando possibilidades coloridas, chão empoeirado do coração...
Quanta poesia crua, e ao mesmo tempo doce... Muitas sinapses aqui, amiga.
Se é que Eva é Pandora, e Pandora é Eva, melhor mesmo deixar essa porta bem aberta. Quem sabe, por ela também escape, tal como na famosa caixa, a boa e velha esperança.
Beijos,

Poeta da Colina disse...

Certos passados não se guarda.

Anônimo disse...

MARAVILHOSO!!!!!!! A CADA CRÔNICA NOVA, UMA DESCOBERTA SENSACIONAL!!!! De fato é isso .....precisamos morrer para alguns seres humanos para que possamos viver uma nova vida!!!!!! Quero morrer nessa vida para viver em outra mais feliz!!!!

Mar Arável disse...

... entretanto ...

não há morte nem princípio

Gostei do seu texto
do contorno das palavras e dos sentidos

Menina no Sotão disse...

Levei dias para comentar, porque você finalizou dizendo que "
Mais tarde descobriu que para conseguir de fato viver,
era preciso morrer"...
Ela abriu a caixa, não foi? Começou a morrer a partir daí, afinal, o desconhecido quando não mata, machuca e ao machucar acaba matando. mas como se sobrevive a partir disso? Morremos a cada novo instante e o que aprendemos é o que fica...
A morte como dádiva. O verbo matar sempre foi muito conjugado por mim, as vezes em tempos errados. Levei tempos para compreender suas aglutinações. rs

bacio

Sonia Pallone disse...

Todo final é um recomeço. Beijos querida.

Anônimo disse...

Eram tantas as revoluções, diversos terremotos, estranhos furacões e eternas tempestades que não podia apenas ser uma caixa...
Tinha que ser uma porta.

Escancarada está! Emperrada, assim, ficará!! E por ela passarão novidades, estranhezas, sonhos e durezas.

Aproveite....
São poucas as vezes em que podemos morrer para viver!!

Essa é uma delas!!

Parabéns por mais esse lindo e sincero texto.
E setembro se aproxima!!

O que mais passará pela porta?