28 de setembro de 2011

Acidente-incidente.


Performance de Alice Buratto
Foto de Simone Huck

Você atropelou minha estante de livros.
Esmagou com seus dedos cada palavra que eu duvidava.
Cuspiu nas minhas fotografias. E depois, sorriu pra mim, como quem tem a certeza de todos os reinos que domina. 
Sim, você dominava tudo em mim, até o que eu não sabia, até o que nem existia.

Você chegou num dia de verão. Trazendo café, balas e a intensidade das coisas que insistem em ser imortais, e são.
Deitou no meu sofá, colocou suas sandálias debaixo da minha cama e me disse que o achocolatado do armário era apenas seu. 

Mudou o assoalho da minha casa. Pintou minhas paredes com as suas cores.
Pegou algumas peças das minhas roupas e queimou porque você achava que eu não ficava muito bem nelas.
E num dezembro qualquer, decidiu partir, do mesmo jeito que chegou.

E desde então, o mundo - imundo e cheio - parece-me tão vazio…
Sinto-me acorrentada ao chão e desisto. 
Você venceu !!
E eu me tornei essa sala: cinza, vazia, com uma parede cor de uva gritando alguma coisa que não escuto. 

Não, eu não escuto. 
Pare de gritar. 

5 comentários:

V. Linné disse...

Perfeito, realmente.

Só quem tem a certeza da posse pode maltratar aquilo que domina.
Só quem não tem dono pode partir deixando a casa [e o coração de alguém] assim, aos gritos.

Silmara Franco disse...

Gostei muito. Mas a poesia da autobiografia corta e machuca. Não é, amiga?

Poeta da Colina disse...

Acidente foi tornar-se acessório, incidente é lutar para estar em outro lugar.

Mar Arável disse...

Excelente

é preciso abrir janelas
escancarar o vento

Dilma disse...

Lindo, encantada com esses escritos,vc já tem um livro com essas coisas reunidas? parabéns