Performance de Alice Buratto
Foto de Simone Huck
Você atropelou minha estante de livros.
Esmagou com seus dedos cada palavra que eu duvidava.
Cuspiu nas minhas fotografias. E depois, sorriu pra mim, como quem tem a certeza de todos os reinos que domina.
Sim, você dominava tudo em mim, até o que eu não sabia, até o que nem existia.
Você chegou num dia de verão. Trazendo café, balas e a intensidade das coisas que insistem em ser imortais, e são.
Deitou no meu sofá, colocou suas sandálias debaixo da minha cama e me disse que o achocolatado do armário era apenas seu.
Mudou o assoalho da minha casa. Pintou minhas paredes com as suas cores.
Pegou algumas peças das minhas roupas e queimou porque você achava que eu não ficava muito bem nelas.
E num dezembro qualquer, decidiu partir, do mesmo jeito que chegou.
E desde então, o mundo - imundo e cheio - parece-me tão vazio…
Sinto-me acorrentada ao chão e desisto.
Você venceu !!
E eu me tornei essa sala: cinza, vazia, com uma parede cor de uva gritando alguma coisa que não escuto.
Não, eu não escuto.
Pare de gritar.

5 comentários:
Perfeito, realmente.
Só quem tem a certeza da posse pode maltratar aquilo que domina.
Só quem não tem dono pode partir deixando a casa [e o coração de alguém] assim, aos gritos.
Gostei muito. Mas a poesia da autobiografia corta e machuca. Não é, amiga?
Acidente foi tornar-se acessório, incidente é lutar para estar em outro lugar.
Excelente
é preciso abrir janelas
escancarar o vento
Lindo, encantada com esses escritos,vc já tem um livro com essas coisas reunidas? parabéns
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