Vida, 2008 - Simone Huck
Como a vida é cômica, ela disse.
Ele, sem hesitar completou: Eu diria que ela é crônica.
E assim, despretensiosamente, mas com tamanha avidez, os dois,
nascidos num cinco de dezembro qualquer,
amanhecido apenas na memória de poucos que lembram, continuaram:
A vida...
Um escândalo de intempéries constantes,
uma doença cuja única cura mata.
Uma tangência indiscutivelmente sem congruência, sem razões lícitas, uma orgia!
Um balão vermelho, um festim, uma condenação eterna, uma glória.
A vida...
Uma dádiva e uma maldição colidindo-se.
Um sopro de anjo, uma queda de granizo, um acidente.
Um tiro na boca, um gosto de mel na ponta da língua, uma dúvida que jamais adormece.
Ah, a vida... (falta ar...)
Duas nuvens de chuva, uma carinho no sol, o amanhecer que nunca vem.
Um eterno sonho em pedaços desmedidos, nada cúmplices...
Um ruflar de asas imensas e sonsas, que nos fazem sentir o voo só na hora de cair.
Uma queda livre que nos arrebenta-Frida e não mata...
Mesmo assim queremos morrer estufado de vida até lá no final.
Feito chocolate escorrendo pelo canto da boca.
Simone Huck e V. Linné

3 comentários:
Lindas palavras que em duplo sagitário escorrem pelos dedos. Alma aquecida.
Parabéns, poetas....
Ela sabe mais, até mesmo o momento de chegar e ir embora.
"estufados de vida".Bonito texto. a vida vai sendo.bjim
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