19 de outubro de 2011

Diálogo sobre a vida.

Vida, 2008 - Simone Huck

Como a vida é cômica, ela disse.
Ele, sem hesitar completou: Eu diria que ela é crônica.

E assim, despretensiosamente, mas com tamanha avidez, os dois, 
nascidos num cinco de dezembro qualquer,
amanhecido apenas na memória de poucos que lembram, continuaram:

A vida...
Um escândalo de intempéries constantes,
uma doença cuja única cura mata.
Uma tangência indiscutivelmente sem congruência, sem razões lícitas, uma orgia!
Um balão vermelho, um festim, uma condenação eterna, uma glória.

A vida...
Uma dádiva e uma maldição colidindo-se.
Um sopro de anjo, uma queda de granizo, um acidente.
Um tiro na boca, um gosto de mel na ponta da língua, uma dúvida que jamais adormece.

Ah, a vida... (falta ar...)
Duas nuvens de chuva, uma carinho no sol, o amanhecer que nunca vem.
Um eterno sonho em pedaços desmedidos, nada cúmplices...
Um ruflar de asas imensas e sonsas, que nos fazem sentir o voo só na hora de cair.
Uma queda livre que nos arrebenta-Frida e não mata...

Mesmo assim queremos morrer estufado de vida até lá no final.
Feito chocolate escorrendo pelo canto da boca.

Simone Huck e V. Linné





3 comentários:

Lilian Werneck disse...

Lindas palavras que em duplo sagitário escorrem pelos dedos. Alma aquecida.
Parabéns, poetas....

Poeta da Colina disse...

Ela sabe mais, até mesmo o momento de chegar e ir embora.

Dilma disse...

"estufados de vida".Bonito texto. a vida vai sendo.bjim