15 de novembro de 2011

NOVO ENDEREÇO

Agora o letras e tempestades está em novo endereço, acessem:


ESPERO VCS POR LÁ.
Beijos, Simone

Vai ser dezembro...


Foto: Simone Huck

Minha memória não fez catecismo
nem minhas mãos ofereceram velas ou esmolas.
Meu coração parou em diástole
e meu pensamento foi feito em gerúndio.

Me vesti de azul mas pensei vermelho.
Refiz a rota mas mudei de caminho.
Pintei o quadro mas não coloquei o acento.
(...)

Dezembro,
outra vez,
atravessando minha garganta
e emudecendo minha boca.
Onde habitará nossa vasta planície de palavras?

31 de outubro de 2011

A flor seca...

"Sem título", 2008  Simone Huck

Encontrei outra flor seca no livro esquecido da estante.
Qual história ela guardaria se nem mais consigo lembrar da minha?

Há rumores de que os planetas descerão.
Você me oferece um cigarro enquanto eu me visto de azul.
Já brindamos no mesmo copo os sonhos e as tormentas.
Bebe?
É apenas um gole de desencanto!

Não temos herança ou pátria.
Essa noite não dormiremos, nem morreremos - não ainda.
Enquanto nossos personagens pedem pra descansar, a gente insiste na história.
Apago a sua boca
Vamos relembrar as palavras que deveríamos ter falado.

Borboletas querem sair da gaiola enquanto pássaros rasgam casulos.
Pendurei seus sapatos no varal.
Você não pode sair descalça, meu amor.
Lá fora há um indeterminado deus. Aqui, um tirano Zeus.

Aquiete-se.
Já anoitecemos na dúvida.
Já esvaziamos as perguntas.
Acabou o medo.
Percebe?
Acende a luz.
Agora você consegue ver:
o motivo,
a razão
e a palavra que nunca mais direi.

23 de outubro de 2011

Porque ainda era outubro....


Encheu uma taça com um pouco do último vinho tomado 
em algum outro lugar que a memória ainda buscava...
Sorriu. Bastavam lembranças. Aquecia-se nelas.

Sentou no sofá da sala.
E pensou: NÃO HÁ OUTRO FIM que não este...
E o vídeo completou... INVENTION OF LOVE.


19 de outubro de 2011

Diálogo sobre a vida.

Vida, 2008 - Simone Huck

Como a vida é cômica, ela disse.
Ele, sem hesitar completou: Eu diria que ela é crônica.

E assim, despretensiosamente, mas com tamanha avidez, os dois, 
nascidos num cinco de dezembro qualquer,
amanhecido apenas na memória de poucos que lembram, continuaram:

A vida...
Um escândalo de intempéries constantes,
uma doença cuja única cura mata.
Uma tangência indiscutivelmente sem congruência, sem razões lícitas, uma orgia!
Um balão vermelho, um festim, uma condenação eterna, uma glória.

A vida...
Uma dádiva e uma maldição colidindo-se.
Um sopro de anjo, uma queda de granizo, um acidente.
Um tiro na boca, um gosto de mel na ponta da língua, uma dúvida que jamais adormece.

Ah, a vida... (falta ar...)
Duas nuvens de chuva, uma carinho no sol, o amanhecer que nunca vem.
Um eterno sonho em pedaços desmedidos, nada cúmplices...
Um ruflar de asas imensas e sonsas, que nos fazem sentir o voo só na hora de cair.
Uma queda livre que nos arrebenta-Frida e não mata...

Mesmo assim queremos morrer estufado de vida até lá no final.
Feito chocolate escorrendo pelo canto da boca.

Simone Huck e V. Linné





13 de outubro de 2011

Em algum lugar..

Foto: Simone Huck
Vago pensativa entre gramáticas corrompidas.
Vou despindo a palavra e a letra,
fragmentando-me.
Tentando digerir 
a parte vaga de mim que se apresenta 
da outra parte que realmente é.

Vou dilacerando,
dissecando,
remoendo pretéritos imperfeitos
e procurando entre minhas sombras,
respostas dissonantes pro acúmulo de perguntas presentes.

É outubro.
Você sorri e garante que tudo ficará bem.
Eu, 
quase nunca acredito.

28 de setembro de 2011

Acidente-incidente.


Performance de Alice Buratto
Foto de Simone Huck

Você atropelou minha estante de livros.
Esmagou com seus dedos cada palavra que eu duvidava.
Cuspiu nas minhas fotografias. E depois, sorriu pra mim, como quem tem a certeza de todos os reinos que domina. 
Sim, você dominava tudo em mim, até o que eu não sabia, até o que nem existia.

Você chegou num dia de verão. Trazendo café, balas e a intensidade das coisas que insistem em ser imortais, e são.
Deitou no meu sofá, colocou suas sandálias debaixo da minha cama e me disse que o achocolatado do armário era apenas seu. 

Mudou o assoalho da minha casa. Pintou minhas paredes com as suas cores.
Pegou algumas peças das minhas roupas e queimou porque você achava que eu não ficava muito bem nelas.
E num dezembro qualquer, decidiu partir, do mesmo jeito que chegou.

E desde então, o mundo - imundo e cheio - parece-me tão vazio…
Sinto-me acorrentada ao chão e desisto. 
Você venceu !!
E eu me tornei essa sala: cinza, vazia, com uma parede cor de uva gritando alguma coisa que não escuto. 

Não, eu não escuto. 
Pare de gritar. 

1 de setembro de 2011

Sombras em Setembro....


Sombras de Setembro, 2011 - Simone Huck

Ainda somos ontem 
num hoje 
que já se transformou 
em outra coisa. 

Somos casa vazia 
e saudade esquecida. 
Memória apagada
e nostalgia vencida.

29 de agosto de 2011

Nem todas as respostas EXISTEM.


Será que algo sempre irá nos escapar? Escorrendo pelas mãos,
entre nossos dedos ávidos por respostas que nunca existirão?
Ultimamente, chove mais em mim.
Dias de chuva prolongados, silenciosos.

Tantas questões escorrem, abertas: não consigo fechar meus portões.
Tantas coisas que sei que jamais responderei, ecoam.
Outras, querem se transformar em dúvidas...
Então fecho os olhos e acredito apenas na verdade das minhas verdades.
Sigo.

Lentamente vou abrindo os dias,
perguntando sobre mim e me reconhecendo sempre uma outra.
Não sei se gosto.
Mas também não desgosto.
Hoje, apenas sigo.

15 de agosto de 2011

A PORTA DE PANDORA


Foto: Simone Huck


Abriu a janela do quarto e a luz que vinha de fora lhe ofuscou a alma. 
Eram tantas contradições penduradas em sua boca. E nas suas costas doloridas, as asas começavam a dar sinais de que nasciam, fazendo com que ela tivesse a pesada sensação de que carregava o mundo. 
Tudo doía: a vida, os passos, a noite.

Eram dias estendidos em grandes varais balançando possibilidades coloridas. Projeções. 
Fragmentos. 
Saliva com gosto de Monet, Manet, Picasso... Qual era mesmo o nome do perfume que ela insistia em não acertar?

Não, não foi a caixa. 
A caixa era pequena, até certo ponto inútil num canto qualquer de um cômodo que antecedia a porta. 
E ela tentou com os joelhos, com os cotovelos, com seu corpo dolorido se atirar e fechar, empurrar, esmurrar, não ver, não querer, não saber, não perceber que só de ter visto transformou-se em outra, era outra.
E então a Porta de Pandora se abriu.
E com ela, veio o choro, o grito, a vontade de não ter visto, de não ter crescido, de não ter se transformado em tantas outras omitidas em si.

Sentou no chão. Chorou. 
Enxugou as lágrimas com um pedaço de pano da cortina e com a ponta dos dedos foi fazendo desenhos no chão empoeirado do seu coração. Tudo era um quadro, um campo, uma possibilidade de inscrições. 
E ali deixou-se ficar, estendida entre lágrimas e desenhos, morte e vida.

Mais tarde descobriu que para conseguir de fato viver, 
era preciso morrer.

3 de agosto de 2011

Era ontem quando não admitimos mais o hoje

Foto: Simone Huck

Qual dos abismos que há em meus olhos que você caiu?
Em qual palavra das minhas palavras sempre perdidas, você se perdeu?
Por que o engano se todas as coisas nunca são o que de fato parecem?
Por que crucificar parece doer menos do que ser crucificado?

Engana-se quem omite parte na culpa.
Engana-se quem acha que a vida muda por si só.
Também perde quem joga.
Também morre quem mata.
Também sonha quem pensa que já esqueceu.

Há tanto sem palavras.
Há dias sem acenos e oceanos.
Há uma boca seca que não pede nem água, nem beijo.

Admitir nem sempre significa perder.
Vender flores, não significa vender amor.
Chorar não precisa doer.
Envelhecer não precisa ser complicado.

Escrever isso ou aquilo não significa que é o que penso.
O que penso, não significa que não escrevo.
Dormir pode ser acordar.
Acordar, pode ser morrer.
Eu,
você,
todos nós na mesma vírgula,
na mesma reticência
ou 
no mesmo agosto sem gosto de nada.

28 de julho de 2011

Carta à Cecília Meireles...

 Foto: Simone Huck

Ah, Cecília... 
O teu abandono é o meu.
Deita tua boca póstuma na minha, assopra de mim esse eco de outros mundos.
Descansa teus ossos frios no meu corpo quente,
teus naufrágios nas minhas tempestades.

Será que não vê, Cecília?
Será que não reconhece meu rosto nos extremos da noite?

Por onde vagaremos-sombra?
Que mundo recolherá feito grão nossas palavras fragmentadas de amores?

Ah, Cecília...
Teus aclames incendiaram minha cama.
E passei o dia colhendo rosas para te oferecer nos escuros da noite,
quando nossa alma levanta dos abismos de nós
revogando vida em seu motivo de flor.

E agora, Cecília?
O que a sua fria e túmida voz dirá?

25 de julho de 2011

Restos da Manhã.

Restos, 2010 - Simone Huck

Amanheci Estela:
distante, frágil, incorreta.
Refazendo rotas,
revirando estrelas,
estradas, oceanos de mim em ti.

Conjugando
ser,
estar,
ficar
e
partir.

Amanheci Estela:
estranha.
Como se não fosse eu dentro de mim,
como se tudo fosse outro
e eu não fosse ninguém.

24 de junho de 2011

Daquelas coisas...

Foto: Simone Huck

Amanheço tempestades 
e não deito letras.
Fecho os olhos
tudo esteve no antes.

 A solidão esconde-se
no escarro que a minha garganta omite.
Mastigo palavras:
quero o eterno dos silêncios.
Meu fígado não sintetiza meus adjetivos:
mastigo detalhes.

Engasgo os vazios que minha alma grita.
Almoço pretéritos imperfeitos
e arroto lembranças que não dizimo.

Toda vez que deito,
meus olhos se abrem e não durmo.
Só pode ser setembro.

16 de junho de 2011

ADÉLIA E A NOITE...

  "Vida", 2010 - Simone Huck
Adélia brindou-me com uma taça nas mãos.
Puxou a cadeira.
Sentou-se e, antes, escarrou no canto da porta alguma palavra sem dente que não conseguiu digerir.
Sorriu com dentes amarelados por mariposas que rodeavam tontas alguma luz acesa na noite.
Trazia um cigarro, um caderno e todo o seu sarcasmo entre suas unhas levemente sujas.
Adélia tinha cabelos brancos que guardavam muitas histórias 
e uma pele enrugada que não ousava lembrar tudo o que não teve coragem de viver.
Olhou-me.
Seu olhar arrepiou qualquer coisa que eu intencionasse perguntar.
Apontou-me o céu e disse:
olhe aquela estrela!
Prontamente olhei.
Então ela tragou seu cigarro como quem traga respostas de poços escuros e secos, repletos de teias de aranhas antigas e disse:
elas não existem! Não porque são passado, isso são bobagens de cientistas medidores. Elas não existem. “Toda convicção é apostólica”. Não queira ser alegre, nem triste. O segredo habita o entre das coisas.
Então levantou,
caminhou,
abriu o portão e antes de sumir acenou-me como quem nunca mais vai voltar.
E ali fiquei.
Entre os silêncios: - da noite e de mim.
E ali dormi.
Entre as coisas que sonho e que não ouso sonhar.
Entre o que acredito e o que omito.
Entre o antes e o depois de qualquer pensamento-pássaro.
Entre o que sou e o que fui.

Ali,
vislumbrando outras estrelas que não passam de uma bela paisagem pra nos distrair desse tempo ocluso que aprendemos a chamar de vida.

19 de maio de 2011

Não foi porque não quis...


 Vestígios, 2010 - Simone Huck

Alcançou uma caneca no armário querendo alcançar um pedaço de nuvem.
Tomava leite porque o médico proibiu o café, seu único e declarado vício bradado. Abria a boca querendo abrir os olhos e enquanto o líquido branco descia pela sua traqueia omitida por tantas lembranças, sonhava ser café, sonhava ser ontem, sonhava ser setembro.
E todas as vezes que sonhava ser setembro, era um pouco mais feliz. Não pelas flores, mas pelo cheiro da lembrança que delas renasciam sombras de verdades perdidas.
Abriu os olhos mas não era abril. Era maio. E em maio, as noivas casam e acasalam. Enquanto ela, não queria nem casa, nem casamento, muito menos acasalamento.
Tinha a pele ressequida. Tinha a memória apagada. Tinha a voz túmida e um tédio sempre amanhecido. 
E mais uma vez negou suas crenças. Afogou seus traumas no copo de leite e fez tudo descer com o pão duro que restou do dia anterior.
Engoliu a massa ao mesmo tempo que engoliu a vida.
E enquanto o pão descia, trocou a água amarela do vaso cheio de rosas mortas, apodrecidas como seus olhos que não mais acreditavam em nada.
Pensou que era uma delas: podre, morta e amarela.
Então sorriu, engoliu, esqueceu e continuou em sua rotina de traça.

4 de maio de 2011

Turning tables...

Jazigo, 2010 - Simone Huck

Era um violoncelo que insistia.
(Ainda que fosse ontem o hoje. Ainda que fosse sol essa chuva).

Era a lembrança apagada que iluminava o vermelho do espinho que furou sua intenção.
(Ainda que fosse desejo. Ainda que fosse tangente).

Era tarde tão cedo.
(Ainda que fosse chorar, sorrindo. Amanhecer, adormecendo).

Era ouvir estando surdo.
Era enxergar não vendo.
(Ainda que fosse um futuro sonhado).

2 de maio de 2011

ELA ERA O DEPOIS... (Crônica#01)

Ela era o depois, 2011 - Simone Huck

Entrou no carro com pressa. Ligou o rádio ao mesmo tempo que derrubou todas as coisas do console no chão. Olhou o relógio: era atraso, era chuva, eram tantas coisas que não queria misturando-se com os cds que não ajudavam.
Queria ouvir uma música única. Dessas nunca ouvida antes para que pudesse fechar os olhos e sonhar com uma história também nova, num outro planeta, numa outra carne, numa outra alma, numa espaçonave estacionada num planeta recém-formado.
Tinha um gosto amargo na língua que perdurava por alguns meses, desde o momento que passou a não conseguir acreditar mais em nada.

Dormia e nunca sonhava. Acordava e parecia que nunca havia dormido.

Não encontrou o cd, muito menos a música.
A chuva não parou.
O trânsito não ajudou.
E os dias cinzas acumulavam-se pela coleção das suas mãos que tentavam comandar seu universo há muito colidido.

Ela era tão jovem. Ela era tão envelhecida.
Ela o amava. Ele nem sabia. 

Ela precisava visitar o dentista mais uma vez só pra conseguir ficar algumas horas olhando aquela luz sem pensar em nada, com medo de ter medo da dor que o motorzinho sempre lhe provocava, ao mesmo tempo que apagava qualquer dúvida de qualquer vida.

Ela fugia.
Nunca chegava e ainda assim, esperava.

Num dia qualquer de um mês despretensioso, entrou no carro acompanhada por Clarice.
Foi até a primeira praia que suas mãos pudessem alcançar. Sentou. Ensaiou chorar mas nem isso conseguia.
Abriu-a. Ela era tão perfeita quanto tão gêmea.
Clarice falou tudo o que ela gostaria de falar e acreditou em tudo que ela não mais ousava acreditar. Então, fechou-a e a arremessou ao mar.
Clarice boiou até naufragar e com ela, toda a verdade que ela sabia também ser.

Foi então que entrou no carro.
Mirou o mar, acelerou e foi ao encontro de Clarice – não poderia abandoná-la.
Só percebeu que tinha encontrado a alegria quando sua boca virou sal.

19 de abril de 2011

ANIVERSÁRIO DE SETE ANOS DO LETRAS E TEMPESTADES !!!!

Eu, 2011 - Simone Huck
 
SETE ANOS DE LETRAS E TEMPESTADES.

Hoje é aniversário do Letras.
Em 19 de abril de 2004 ele nascia.
Despretensioso, porém, confiante. Passou por alguns endereços mas sempre se chamou LETRAS E TEMPESTADES.
Já tirou algumas horas do meu sono.
Já foi complemento, amigo e impostor.
Já foi espelho da minha alma, já foi máscara, já foi EU e todos os meus outros reunidos numa sala de que sou.
Já foi um poeta fingidor e, algumas vezes, um poeta tão sincero.
Já me fez chorar, rir  e acima de qualquer coisa: orgulhar-me.

Hoje o Letras e Tempestades faz sete anos. Esse número SETE tão mágico pra mim !!
E pra comemorar, o Letras e Tempestades está virando livro.
Foram mais de 350 poesias escritas aqui no decorrer desses sete iluminados anos, que estão sendo devidamente selecionadas, revisadas e catalogadas até virar um livro fresquinho, repleto de tempestades palpáveis.

Foram muitas amizades feitas; algumas, trago até hoje. Alguns escritores tornaram-se meus amigos reais através do Letras; outros, eternos virtuais não menos amigos por isso.

O Letras e Tempestades é o meu amor maior.
Sempre foi.
Sempre será.
Preciso dele para respirar. Para ser.
É como se ele fosse a extensão da minha alma. Minha casa. Minha vigília. Meu tormento vomitado, expelido. Parte da minha alma escrita.

Enfim...
Esse é o meu blog.
Essa sou quase toda eu. E se porventura rotulam-me de “pessoa triste”, “infeliz” ou “inquieta”, pouco me importa. Talvez, parte da minha alma seja mesmo assim: um tanto negra, um tanto cinza, um tanto triste, apesar de ser uma pessoa feliz e realizada. 

Obrigada a todos os leitores.
Obrigada aos amigos que, carinhosamente, me visitam.
Obrigada a todos por dividirem comigo essa alegria.
E aguardem o livro. Ele está sendo muito trabalhado e chegará repleto da minha alma e do meu amor.

16 de abril de 2011

Um eterno nada...

 
Da série: "Espectros em lá maior", 2011 - Simone Huck
 
Seus dentes tão perfeitos eram banhados
por estrelas que não diziam.
Deitavam-se sobre os ossos das palavras secas.
Alimentavam-se do vago clarear
que brindava o silêncio das vírgulas omitidas.

Éramos tão eternos quanto únicos,
quanto breves,
quanto remotos.
Tendíamos a insensatez das horas que conseguiam ser mais em tão menos,
muito em tão pouco.
(...)
Iluminávamos um pouco de um eterno nada.



13 de abril de 2011

Breviedades de abril.

Pássaros, 2011 - Simone Huck

Emancipar-se sem morrer.
Sonhar acordardo.
Crer e depois, ver.

Viver, 
agarrados com a verdade absoluta que carregamos.

Mesmo que seja tarde,  
jamais deixar ser nunca.

2 de abril de 2011

Abril, aberto.

Ilusão, 2010 - Simone Huck

Abril, abriu. 
Abril calou.
Abril esqueceu.
Abril seguiu, sem saber se era dia ou noite.
Abril ouviu. Mentiu, adoeceu.
Abril partiu.
Como as flores, diariamente nascendo e morrendo.
Como as palavras, constantemente admitindo-se.
Como as músicas, permanentemente mudando.
Abril abriu o tempo de sermos outros em tantos.
Trouxe o outono,
trouxe a lágrima e trouxe em sua bagagem
o sorriso querendo ser permanência.
Abril nos libertou.

15 de março de 2011

... era tão dia a noite...

"Ocean", 2011 - Simone Huck

Dança como uma bailarina desesperada sobre a sua dor.
Veste-se de sangue, esperança e tédio.
Alimenta-se do que pensa ter visto.
Bebe do que pensa ser líquido.

Só vê aquele que é cego.
Você não sabia?

10 de março de 2011

Vazio do vazio...

Silêncio, 2009 - Simone Huck 

 Um vazio sem espaço,
sem luz, sem tato.
Um vazio que de tão vazio,
fica mais vazio ainda.
Onde mesmo sem alma, sinto.
Mesmo sem lágrima, choro.
Mesmo morta, respiro.

Um hediondo vazio.

Vazio...
Hediondo e amigo vazio, 
de abraço apertado, olhos fiéis, sussurando minha alma.

23 de fevereiro de 2011

FLUXOS/PENSAMENTOS

 Sem título, 2009 - Simone Huck

1) UM
Vou cuspir a poesia engasgada. 
Algo duvidoso e ainda assim, 
forte.
É apenas fevereiro. 
Não deveríamos descansar?
As máscaras foram transferidas para março,
ainda há tempo para sermos transparentes.


2)DOIS
Era minha febre de alma que escorria ávida pelos poros
(e ninguém via).
Era uma sentença,
uma semelhança,
uma sombra que se acentuava e não dizia,
apenas ditava o que nem eu sabia entender ou controlar.

Era tanto e ainda assim, 
era quase nada.


3)TRÊS
(...)
porque dizer, 
já não bastava mais.
(...)

1 de fevereiro de 2011

É FEVEREIRO !!!

Ocean Whitout a Shore, Bill Viola. (vídeo-instalação)


Fevereiro rasga seu útero e debocha dos meus passos.

A breviedade da vida, as vezes, parece um trânsito caótico de mim em mim.
Colho palavras com a intenção de brotar uma poesia.
Colho pedras com a intenção de assassinar um conceito.

É o mês da purificação, grita Lunna Guedes.

Pergunto-me onde dorme a purificação.
Onde esconde-se a redenção.
Pra onde foi parar a inocência.

Olhos de criança, corpo de ancião.
Desejo de flor, vestígio de espinho.
Gota de chuva, tempestade de desejos.
Pingo de caneta, tráfego de palavras.

Sem máscaras e carnaval,
vamos seguir por um fevereiro que nos traga um pouco de paz.

21 de janeiro de 2011

Fim do túnel...





Fim do túnel, 2011 - Simone Huck

No fim do túnel, a paisagem era outra...
O caminho desviou as palavras,
as palavras, adjetivaram os verbos 
então,
nos tornamos estranhos.

No fim do túnel, 
eu já não era o mesmo nem a minha vontade era minha.
E foi então que pude ver seus olhos: 
labirinto escuro de possibilidades vãs...
...apagando qualquer rastro que eu poderia insistir em chamar de NÓS.

4 de janeiro de 2011

Janeiro-Tempo, 2011 !

A imagem como meio, 2010 - Simone Huck

Janeiro escorre o que o silêncio não ousa dizer.
E a saudade,
coberta velha de apegos,
aquece a incoerência das coisas que deitam sombras.

Nunca fomos imortais,
admita o que a sua ânsia omite.
Nem tão pouco,
dignos de não receber a migalha do perdão.

Que super-homem habita o teu peito?
Do que é feito o orgulho que escarra pela sua boca quente?

Janeiro era tão pouco para sermos muito.
E para ser muito, é preciso saber ser nada.
Uma redução de poeira e lembranças,
dentro do mesmo túmulo que abriga a sua maior dor.

19 de dezembro de 2010

CARTAS PARA DEZEMBRO (para 19 de dezembro de 2010)

Contradições, 2010 - Simone Huck

Debocha de mim.

Contrariando tudo o que posso ser e tudo o que posso sentir.


Debocha dos meus medos até de madrugada e depois me pede pra dormir.

Brinca com meus instintos, brinca com meu tesão, brinca com as minhas palavras.

Troca tudo de lugar.

Os verbos adjetivando-se o tempo todo...

na tangente do que posso acreditar

no escuro do que eu poderia iluminar


Sim, tempo...

Sim, dezembro...

Corroendo minhas margens...

Transformando minhas pautas em pausas.

Dilacerando o pouco do que me convém ser.


Sem esperas, o tempo devora cada folha do que penso.

Sem esperas, a vida consome cada palavra do que escorro.


Deboche.

Deboche de mim...

me pedindo pra ir e me segurando pra ficar.

Com suas mãos, agarra minha camiseta, com sua boca,

me mande pra bem longe de mim e do mundo.


São caprichos?

Inúmeros caprichos que você elucida em seus dentes

azuis que mastigam o tempo em que somos?


A cada segundo sou outro.

Me desconheço.

(você também não me reconhecerá mais.)







15 de dezembro de 2010

CARTAS PARA DEZEMBRO (para 15 de dezembro de 2010)

Guerreira, 2010 - Simone Huck

Não há o que admitir dezembro, será que você não entende?
Todas as guerras iniciam-se e terminam em você...
Nesse seu discurso de paz, habitam as dores de uma humanidade colididas no peito.
Não há o que omitir dezembro, diante de você, difícil não ser transparente.
Máscaras caem.
Palavras sufocam.
Guerras camuflam-se pelas luzes da falta de esperança.

Estou cansada.
Rendo-me. Você venceu. O que mais quer?
Leve com você tudo o que um dia foi meu.
Leve com você tudo o que um dia valeu.

E me deixe, ao menos, respirar.
E me deixe também, assim, sem inspiração, apenas com a o obrigação vazia de lhe escrever uma carta debochada e sem nexo.
Assim, ultrajados, quem sabe seremos nós mesmos.


14 de dezembro de 2010

CARTAS PARA DEZEMBRO (para 14 de dezembro de 2010)

Incensatez, 2010 - Simone Huck

14 DE DEZEMBRO agride minha ironia.
Olha pra mim com olhos de soberba e diz:
"Sou eu que mando, obedeça!"
Mas não nasci pra obedecer, lembra?
Então embalo minhas dores nos braços amalgamados
do meu corpo ressequido que sobra.

Pelos meus tremores,
as lembranças invadem as hemácias em colisão.

Sou mais do que eu poderia ser.
E quando olho no espelho
- a imagem física do que posso ter de mim -
surpreendo-me mais ainda:
Do que sou feito?
A qual espécie pertenço?
Qual divisão celular foi responsável por intermináveis mutações
de pensamentos e sensações?

Abrigo um mundo e mesmo assim me desconheço na população que sou.
Vivo dias remotos.
Penso dias cintilantes.
Respiro dias azuis enquanto vomito coisas vermelhas e reluzentes.

Vou parir um viaduto!
Algo hediondo que lhe convença que a vida não tem regra e que a regra, não tem vida.

Vou engolir esse café gelado como quem engole a saliva vencida pelo copo de vinho velho de onde um dia fomos feitos.
Simone Huck


(da série "Cartas para Dezembro" - escritos que saem direto do coração, que falam de mim e das questões que quero interrogar para um Dezembro quase infindável...)